8. MUNDO 13.3.13

1. ENCONTROS COM CHVEZ
2. POR QUE A VENEZUELA CHORA POR CHVEZ

1. ENCONTROS COM CHVEZ
Mesmo diante de chefes de Estado, ele adorava contar anedotas e fazer ironias, mas no fazia teatro. No fundo, era tremendamente srio
por Paulo Moreira Leite

Encontrei Hugo Chvez pela primeira vez em Caracas, num domingo de 1999. Era um dia de glria para o presidente eleito meses antes, com 56% dos votos. Inaugurando uma estratgia de suicdio eleitoral que foi repetida muitas vezes nos 14 anos seguintes, seus adversrios haviam boicotado um referendo sobre a convocao de uma Assembleia Constituinte. Os votos ainda no haviam sido apurados, mas j era possvel enxergar uma vitria de Chvez por larga margem, fenmeno que, como os boicotes adversrios, tambm seria quase uma rotina de seus 14 anos de governo. 

Chvez se encontrava em seu gabinete no Palcio Miraflores, um aposento que traduzia uma atividade poltica febril e um tanto bagunada. Eram pastas empilhadas, livros abertos, um aparelho de tev ligado e, no meio de tudo isso, um chefe de Estado que a maioria dos observadores descrevia como um fanfarro inofensivo, prdestinado a ser despachado para casa no primeiro solavanco do barril de petrleo. 

Na prtica, era difcil enxergar Chvez em roupas civis. A imagem do coronel que, sete anos antes, aps um levante popular conhecido como Caracazo, tentara derrubar um presidente constitucional, numa quartelada que tinha vrios traos semelhantes  Intentona Comunista de 1935, levada a cabo por tenentes orientados por Luiz Carlos Prestes, ainda era muito forte. Numa sala de espera do palcio, uma auxiliar do presidente me ofereceu um brinde para levar como lembrana  uma estatueta de Hugo Chvez em farda de coronel do Exrcito, com a boina rubra de paraquedista, igual quela que foi usada em seu funeral, 14 anos depois. Em 1992, ao aceitar a rendio aps o golpe derrotado, Chvez anunciou que baixava as armas por enquanto. Em 1999, parecia convencido de que havia recuperado seu lugar na histria como o sujeito que volta para casa aps uma viagem mais demorada.

Caloroso, sorrindo com facilidade, Chvez falava de projetos para mudar a Venezuela. Em vez de um pas com trs poderes  Executivo, Legislativo e Judicirio , queria um Estado com mais dois, o poder Cidado e o Eleitoral, arquitetura institucional cuja complexidade tinha uma dificuldade imensa de explicar e ningum, nunca, foi capaz de entender com clareza. Sua meta mais palpvel era uma tremenda vontade de unir os povos latino-americanos, do Caribe  Patagnia, numa posio de antagonismo em relao aos Estados Unidos. Sugerindo que o antiamericanismo era uma consequncia natural, quase biolgica, dos povos nascidos abaixo do Rio Grande, em determinado momento Chvez passou a mo nos cabelos, negros e duros, quase crespos, e, prendendo um tufo entre os dedos, sublinhou: Essa  a diferena. Da ponta da Amrica do Sul at o Caribe, ns somos assim, disse. Nestes cabelos est toda nossa histria.
 
Naquele momento, esse discurso parecia delrio num continente em outra etapa da histria. Os brasileiros haviam acabado de assistir  terceira derrota eleitoral de Luiz Incio Lula da Silva, batido por Fernando Henrique Cardoso ainda no primeiro turno. Na Bolvia, fora dos movimentos sociais de ultraesquerda, ningum ouvira falar de um lder de plantadores de coca chamado Evo Morales. No Equador, o economista Rafael Correa era um ilustre desconhecido. 

Chvez tinha a conversa daquelas pessoas que acreditam ter o dom de enxergar as mudanas histricas. Fazia ironias, adorava anedotas, mas no fundo era tremendamente srio, atitude que, aps o colapso de tantas ideologias, chegava a espantar. No fazia teatro, ainda que, s vezes, houvesse mais convico do que consistncia.

No incio de 2001, Chvez foi a Montreal com uma misso definida  tentar implodir a Alca, aquele projeto de criar uma zona de livre comrcio em todo o continente, patrocinado pelos Estados Unidos, com apoio moderado mas real de Braslia. Depois de criar um ambiente de suspense, espalhando o rumor de que nem estaria presente, Chvez apareceu em Montreal. s vsperas de pronunciar um discurso dramtico em que anunciou a sada da Alca, quando fez apelos elogiosos ao mestre Fernando Henrique Cardoso para que agisse da mesma forma, usou o saguo do hotel em que se hospedara para falar demoradamente com jornalistas. Passavam garons com bandejas de usque, diplomatas carregando pastas de couro, senhoritas que sempre aparecem nessas horas  e o presidente da Venezuela falava, falava, falava. Enquanto chefes de Estado de PIB muito mais relevante no conseguem disfarar a tenso numa hora como esaa, Chvez estava descontrado. Terno justo, mo no bolso, sem perder a chance de contar uma anedota, parecia um veterano jogador de futebol pronto para entrar em campo para disputar uma partida  apenas mais uma. Suas palavras, to repetidas, pareciam sair de uma gravao montona: anti-EUA, a favor dos pobres e dos excludos. Chvez foi embora da Alca sem arrastar ningum, mas, trs anos depois, por falta de interesse real dos principais interlocutores, a iniciativa foi arquivada sem lamrias de ningum. 

Na juventude, Chvez integrou uma organizao esquerdista inspirada na guerrilha de Fidel Castro que pregava a luta armada como melhor caminho para derrubar o sistema capitalista. Usou codinome, reunia-se em clulas clandestinas e conspirava contra os superiores, preparando o dia em que iria derrubar a antiga ordem. Aps a chegada ao Palcio Miraflores, manteve a devoo por Fidel Castro, com quem mantinha uma relao subordinada, como aluno e mestre. Era capaz de mudar de opinio, durante um encontro internacional, aps um telefonema de Fidel  e nem sempre fazia questo de esconder isso de seus interlocutores. 

Nem coronel nem presidente, Chvez era um militante, essa criatura poltica nascida nas grandes lutas sociais do sculo XIX e comeo do sculo XX. Governava cumprindo tarefas, com frieza e cuidado. Mas prestava questo nas coisas prticas. Seu antiamericanismo profundo nunca impediu que fizesse dos Estados Unidos seu principal parceiro comercial. Ali se encontravam os dlares que ajudariam o PIB do pas a crescer quatro vezes em 14 anos, permitindo que o petrleo fizesse jorrar US$ 6 bilhes em programas sociais, elevando apenas os gastos com sade pblica em cinco vezes, em seis anos. Chvez deu a sorte de enfrentar um perodo de crescimento da economia mundial, que fez o barril de petrleo saltar de US$ 10 na posse para quase US$ 100 nos ltimos anos. Mas tambm fez sua parte. Trabalhou seu antiamericanismo e estimulou a reconstruir a Opep, dos pases produtores de petrleo, o que ajudou a manter os preos num patamar mais conveniente.

Na Venezuela, a cultura poltica permite que lderes da oposio declamem pargrafos inteiros de Paulo Coelho nos comcios, numa prova de que as ideias tm um curso que os estrangeiros nem sempre tm facilidade para compreender. Nesse ambiente, Chvez no conseguiu construir um sistema coerente de ideias, capaz de sobreviver a sua morte. Tambm no mostrou o empenho necessrio para criar novas fontes de riqueza para a economia venezuelana. Recebeu um petro-pas e entregou um petro-pas, ainda que muito mais rico. Mas a multido que chora sua morte mostra que Hugo Chvez foi capaz de vislumbrar a histria dos anos seguintes quando falou das pessoas de cabelos negros, duros, quase crespos.


2. POR QUE A VENEZUELA CHORA POR CHVEZ
Hbil em cultivar a imagem de messias, o caudilho deixa um legado dbio: tirou milhes de venezuelanos da pobreza, mas destruiu a economia do pas. At que ponto so merecidas as lgrimas vertidas por seu povo?
Por Amauri Segalla

 DOR - Venezuelana verte lgrimas sinceras diante do Hospital Militar de Caracas
 
Uma mulher chamada Valentina descreve assim a hora trgica. Estvamos em casa quando soubemos da morte pelo rdio. Comeamos a chorar porque o homem mais importante do mundo tinha morrido. Dalila no vai esquecer desse dia: As aulas foram suspensas e os alunos liberados para ir embora. Vitor explica o que sentiu: A vida parecia ter parado. Valentina, Dalila e Vitor poderiam ser alguns dos milhares de venezuelanos que na semana passada se dissolviam em lgrimas pela morte do presidente Hugo Chvez, mas eles so sobreviventes da antiga Unio Sovitica. Os trs deram entrevistas recentes ao jornal Gazeta Russa, que publicou lembranas de pessoas que viram de perto o desaparecimento do tirano Josef Stlin, h exatos 60 anos. Por uma dessas estranhas coincidncias, Chvez e Stlin morreram no mesmo dia  5 de maro  e despertaram em seu povo o mesmo sentimento de desespero. Na Venezuela, as aulas foram suspensas e havia luto por todo o lugar. A vida, de certa forma, parou. Se Chvez morreu, deveramos todos morrer juntos, estava escrito em um cartaz carregado por um venezuelano que acompanhava, na quarta-feira 6, o cortejo fnebre. Chvez  nosso pai amado, nosso mrtir, nosso Deus, lia-se em outro pster. Chvez, minha alma partiu com a sua, dizia um terceiro. Messias dos oprimidos ou o prprio demnio em pessoa? Revolucionrio ou ditador? Maluco ou o ltimo anti-imperialista do planeta? Dinossauro da poltica ou socialista do sculo 21? Palhao ou gnio? Mostro ou santo? Por mais que Chvez desperte dios e paixes, a verdade indestrutvel  que o povo venezuelano chorou lgrimas sentidas por ele. Muito diferente  saber se ele realmente as merece.

Os pobres da Venezuela tm motivos para prantear Chvez, morto aos 58 anos. At os crticos mais severos reconhecem a eficincia de sua poltica de combate s desigualdades sociais. Nos 14 anos em que esteve no poder, Chvez voltou os olhos para os marginalizados, tendo sido muito provavelmente o primeiro lder do pas a centrar seu governo na defesa dos excludos. Com o dinheiro que jorrava das reservas de petrleo, o presidente construiu escolas, ofereceu alimentos subsidiados para os miserveis, abriu linhas de crdito para a compra de casas populares, trouxe mdicos cubanos para atender gratuitamente os moradores das favelas (o efeito dessa ltima ao foi a queda de 32% da mortalidade infantil desde 1999). Antes de Chvez, a Venezuela investia 8% do Produto Interno Bruto em aes sociais. Com ele, o nmero subiu para 14%. Em 1999, um quarto dos venezuelanos vivia na pobreza extrema, ndice comparvel ao de naes africanas desvalidas. Hoje, o percentual  de 7% e o ritmo de pessoas que deixa a linha da misria indica que o nmero tende a cair mais. Ao morrer, Chvez deixou um legado notvel na rea social e isso explica, em grande medida, por que ele  idotrado por venezuelanos que sempre se sentiram relegados. Isso explica, tambm, o choro verdadeiro dos pobres, temerosos de que deixem de ser, nos prximos governos, uma massa digna de ser ouvida e respeitada.

Mas o foco total nos oprimidos gerou um efeito indesejado. Chvez esqueceu que governava para todos. Seu discurso feroz contra os ricos fez com que, na dcada passada, mais de 300 mil venezuelanos abastados deixassem o pas para viver principalmente nos Estados Unidos. Em vez de investir na economia venezuelana, os debandados despejaram os fartos recursos no exterior. O efeito disso foi ruim. Alm das perdas financeiras sofridas pela Venezuela, Chvez ampliou as divises da sociedade. Nunca houve no pas uma polarizao to grande, diz o cientista poltico Carlos Romero, da Universidade da Venezuela. Funciona mais ou menos assim: se voc  pobre, est com Chvez, apia a revoluo bolivariana iniciada por ele em 1999 (revoluo esta que era inspirada no venezuelano Simn Bolvar, mrtir da independncia de diversas naes da Amrica do Sul) e tem como inimigo o demonaco Estados Unidos. Se voc  rico, est contra a Venezuela,  vendido aos imperialistas e merece, na cabea dos radicais, sofrer todos os males possveis e imaginveis. O problema  que nenhuma sociedade resiste a essa viso maniquesta. Polarizaes to explcitas levam ao dio mtuo e  impossibilidade de convivncia. Levam, acima de tudo,  intolerncia diante de opinies divergentes. Chvez era refratrio ao debate aberto e andou cassando a licena de emissoras de tev e perseguindo jornais. Ele no assimilou a lio do ex-presidente brasileiro Lula:  preciso afagar, de um lado, os excludos, mas  necessrio tambm ser prximo de empresrios, banqueiros e investidores. S assim um pas anda. S assim a economia cresce.

Para o ex-ministro da Fazenda e atual diretor da Faculdade de Economia da Faap, Rubens Ricpero, na mesma medida em que acertou a mo nas aes sociais, Chvez errou na condio da poltica econmica. A Venezuela continua a ser dependente demais do petrleo, sua indstria no  competitiva e faltam investimentos em infraestrutura, diz Ricpero. Em outras palavras: Chvez foi um desastre para as finanas do pas. A dinheirama do petrleo, que parecia fcil e segura, foi desperdiada sobretudo pela corrupo e pela disseminao do chavismo mundo afora. Apenas com a Cuba de Fidel Castro Chvez gastou, entre 2005 e 2010, US$ 34 bilhes. Outros incontveis bilhes foram cedidos a pases como Equador e Bolvia  em gratido pela generosidade, essas duas naes tambm expulsaram embaixadores americanos, no que foram aplaudidas pelo caudilho venezuelano. Seu legado econmico  mesmo uma tragdia. A inflao est acima de 20% ao ano, uma das mais altas do mundo, e o bolvar, a moeda venezuelana, evaporou durante a gesto Chvez, se desvalorizando 992%. 
Em sua sanha revolucionria, Chvez promoveu uma onda de estatizao. Expropriou empresas de diversos setores e orgulhou-se de botar para correr empresrios que defendiam a iniciativa privada. Com Chvez, o governo venezuelano passou a controlar 80% do setor de telefonia fixa, 40% do bancrio e 35% do varejo de alimentos. O resultado disso os brasileiros conhecem bem pelas experincias vividas no passado recente: servios de pssima qualidade e que muitas vezes funcionavam apenas para abastecer os bolsos de pessoas ligadas ao goveno. Nmeros oficiais revelam como o caudilho foi irresponsvel com o errio. Em seus governos, os gastos pblicos passaram a responder por impressionantes 52% do PIB. Antes dele, o ndice era de 25%. Nem na rea em que o pas deveria demonstrar expertise, como na petrolfera, as coisas saram bem. Graas  corrupo e  falta de investimentos em tecnologia, os venezuelanos reduziram a produo diria de petrleo de 3,1 milhes de barris em 1999 para 2,4 milhes atualmente. A queda  absurda, considerando-se que a Venezuela detm as maiores reservas do planeta. Na Arbia Saudita, concorrente dos venezuelanos nesse mercado, a extrao diria cresceu 40% no mesmo perodo. Na conta de Chvez deve ser colocado tambm o legado da violncia. Na era do caudilho, a capital Caracas passou a ser uma das cidades mais perigosas do mundo. So 67 homicdios para cada 100 mil habitantes, quatro vezes mais do que o nmero registrado uma dcada atrs. No Brasil, h 20,4 homcidios para cada 100 mil pessoas. Detalhe: os brasileiros esto entre os campees mundiais de indicadores de violncia.

Mesmo com dados econmicos desastrosos, Chvez conseguiu a proeza de ser reeleito duas vezes (parece injusto, portanto, cham-lo de ditador). O que explica o sucesso das urnas e a idolatria revelada pelo choro sentido dos venezuelanos? Chvez foi mestre na arte de cultivar uma imagem positiva. Nesse aspecto, ele seguiu ao p da letra as lies de Stlin e de diversos outros tiranos (Mao Ts-tung, na China, Adolf Hitler, na Alemanha, e Nicolae Ceausescu, na Romnia, para citar alguns exemplos). No importa quo cruel voc seja, o importante  convencer o povo de suas virtudes.  o chamado culto  personalidade. Chvez esforou-se ao mximo para propagar a fama de lder desapegado (ele gostava de aparecer, de surpresa, numa casa humilde e jantar, diante de cmeras de tev, com seus moradores). Uma vez, interrompeu uma entrevista ao vivo para atender uma ligao telefnica da me e discutir com ela afazeres domsticos. Em outra ocasio, criticou mulheres que colocam silicose nos seios, alegando que o dinheiro para a cirurgia poderia ser destinado para ajudar os pobres.

A televiso foi a ferramenta preferida para construir a imagem de lder destemido e amigo dos pobres. Nos 14 anos em que se manteve  frente do governo venezuelano, ficou 3.500 horas no ar (o presidente tinha um programa semanal) e chegou a discursar durante nove horas seguidas (lio aprendida com o mestre Fidel Castro, o campeo dos discursos longos e enfadonhos). A exibio macia da imagem foi um recurso usado por Mao, que mandava seus soldados baterem na porta das casas dos chineses para averiguar se eles tinham retrato do grande lder pendurado nas paredes, e do prprio Stalin, que adorava espalhar fotografias de seu belo bigode. Por mais que o critiquem, Chvez era, sem dvida, um ser miditico. Bem-humorado, tinha habilidade natural para fazer tiradas rpidas (num discurso na ONU, disse que o plpito cheirava a enxofre, pois o americano George W. Bush havia discursado no mesmo lugar no dia anterior), e todos que o conheceram de perto afirmam que era um sedutor na acepo mais completa da palavra: em suma, parecia difcil no simpatizar com ele. 
Da se conclui que o governo venezuelano se baseava principalmente na figura de seu lder e no no conjunto de ideias e nas correntes que ele representava. As pessoas adoram Chvez muito mais do que a tal revoluo que ele propagava. No governo Chvez, todos os outros integrantes eram irrelevantes. Em 14 anos, ele trocou ministros mais de 200 vezes e ningum conseguiu se apropriar de seu patrimnio poltico. Isso, como se sabe,  um perigo, e a histria est a para revelar como o culto  personalidade  danoso para um pas. A Venezuela chora por Chvez por sua energia carismtica, capaz de magnetizar quase todos ao seu redor, e tambm porque ele colocou seu pas no mapa geopoltico global. Bem ou mal, com Chvez todo mundo passou a falar da Venezuela. O discurso contra os Estados Unidos atraiu as vivas da velha esquerda latino-americana e ressuscitou antigos fantasmas. Palavras como burguesia, revoluo e imperialismo, que pareciam enterradas no passado recente, voltaram com fora na boca do caudilho. Quem vai ocupar esse espao? No se veem candidatos potenciais na Amrica do Sul, e talvez no mundo. A Amrica Latina vai entrar em uma nova etapa, diz Maria Teresa Romero, professora da Escola de Estudos Internacionais da Universidade Central da Venezuela. Sem Chvez, as lideranas populistas perdem seu brilhantismo.

Populismo, marxismo, autoritarismo, socialismo, antiamericanismo, totalitarismo e vrios outros ismos marcaram os governos Chvez, mas mesmo assim o povo continua chorando sua perda  e talvez faa isso por um bom tempo. Parte desse desespero pode ser explicada pela incerteza do que vem pela frente. Os venezuelanos sabem que Nicols Maduro, o vice-presidente que assumiu interinamente o poder at que novas eleies sejam realizadas (e desse modo fere a Constituio, pois o cargo, pelas regras do pas, deveria ser ocupado pelo presidente da Assembleia at sair o resultado das urnas), no parece ser uma figura nacional capaz de catalizar a admirao dos venezuelanos, nem de realizar as reformas econmicas necessrias. Seu principal opositor, Henrique Capriles, carrega um fardo pesado. Como todos os outros que tentaram derrotar Chvez nas urnas, e foram derrotados por ele, Capriles jamais se distanciou da elite que, historicamente, levou o pas a ser um dos mais pobres e desiguais das Amricas. Foi essa mesma elite que, antes de Chvez, criou castas de milionrios e relegou milhes de venezuelanos  misria. Com o desaparecimento de Chvez, o futuro permanece uma incgnita para ricos e pobres. Enquanto isso, a Venezuela chora por seu caudilho. 

